A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro


Disco Moacyr Luz
  • Disco
  • Ano
  • Gravadora
  • Release
  • Moacyr Luz e Água de Moringa - Sedução Carioca do Poeta Brasileiro
  • 2005
  • Trio de Janeiro Produções
  • O sétimo disco da carreira do cantor e compositor Moacyr Luz se diferencia dos trabalhos anteriores, musicando obras de vários poetas brasileiros que enalteceram, em épocas diferentes, o Rio de Janeiro e seus encantos. O cantor e compositor com seu violão têm acompanhamento do consagrado sexteto de choro Água de Moringa formado por Rui Alvim, Marcílio Lopes, Jayme Vignoli, Luiz Flávio Alcofra, Josimar Carneiro e André Boxexa. Um lindo registro que vale a pena ser ouvido.



01 | Noite Carioca

Moacyr Luz / Murilo Mendes

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Noite na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro
tão gostosa
que os estadistas europeus lamentam ter conhecido tão tarde.
Casais grudados nos portões dos jasmineiros…
a baía de Guanabara, diferente das outras baías, é camarada,
recebe na sala de visita todos os navios do mundo
e não fecha a cara
Tudo perde o equilíbrio nesta noite,
as estrelas não são mais constelações célebres,
são lamparinas com ares domingueiros,
são sonatas de Beethoven realejadas nos pianos dos bairros distintos
não são mais obras do gênio imortal,
são valsas arrebentadas…
Perfume vira cheiro,
as mulatas de brutas ancas dançam o maxixe nos crioléus
suarentos

O Pão de Açúcar é um cão de fila todo especial
que nunca se lembra de latir pros inimigos que transpõem a barra
e às 10 horas apaga os olhos pra dormir

02 | Poema Obsceno

Moacyr Luz / Ferreira Gullar

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Façam a festa
cantem dancem
que eu faço o poema duro
o poema-murro
sujo como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Martinho
Clementina
Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente de Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a festa
enquanto eu soco este pilão
este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)

Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
e espreitam.

03 | Elegia Inútil

Moacyr Luz / Manuel Bandeira

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Lágrimas, duas a duas,
choraram dentro de mim,
ao ler que o Prefeito Alvim
mudou o nome a muitas ruas

Nomes de ruas que havia
no Rio de antigamente!
(a respeito, minha gente
ainda há a Rua da Alegria?)

Eram tão lindos! Assim:
Rua Bela da Princesa
(que distinção, que beleza!
nome que cheira a jardim.)

Rua Direita da Sé:
nome firme, nome nobre;
nome em nada há que se dobre;
nome-afirmação de fé!

Havia as ruas de ofício:
Dos Ourives, dos Latoeiros…
Becos: Beco dos Ferreiros…
e havia as ruas do vício…

Muito nome foi mudado,
mas o novo não pegou:
nunca ninguém não falou
senão Largo do Machado

(Este nome pode ser,
quando, muito, acrescentado,
assim, Largo do Machado
de Assis gosto de dizer

Na do Catete, contou-me
Z., o mestre escreveu Brás Cubas
darás na casa se subas
pela rua do seu nome.)

Esta Rua do Ouvidor
já foi Caminho do Mar!
(Ouvidor pode passar,
mas o antigo era melhor.)

Não tem laranjas, mas cheiras
aos frutos da minha infância:
Ah inesquecível fragrância
da que ainda és das Laranjeiras!

O Largo da Mãe do Bispo
há muito tempo acabou-se
(E hoje acabou o que era doce
ainda: a Rua do Bispo…)

Vais ter um nome pequeno,
Rua do Jogo da Bola!
Vais ter um nome pachola,
ai Travessa do Sereno!

04 | Coisa Mais Linda Mais Cheia de Garça

Moacyr Luz / Elisa Lucinda

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Hoje quando cheguei no Arpoador
me deu uma dor
tinha estado exilado da “maravilhosa”
Fiquei tempo sem ver meu Rio-mar
lambendo as pedras e os beiços desses edifícios
fiquei sem o ofício de ser carioca
fiquei sem vício, fiquei difícil fiquei sem moca
fiquei anti-ecológica, Eva daninha
fiquei desaminiótica
Perdi minha pose, meu pavão, meu irmão, minha rocinha
Queria me esticar inteira e gigantesca
todinha sobre a moda dessa paisagem
Repousar a cabeça nos morros da Sul
enquanto os pés iam pra Norte se empagodar
Que sorte voltar!
Que corte eu ter tido que ficar tão longe daqui

Que saco, enfiado num terno sem pala, sem Lapa vendo todo mundo
branco, desbotado, néon
Meu humor perdeu o tom, o Leblon
a malandragem, a mulatice, o batom

Meu grito faz fom-fom
que Lagoa suja não tem garça nenhuma!
E eu não vou deixar que passem por sobre esse céu
feito um trator…
Cheguei, Redentor! Cheguei meu amor!
hoje quando eu volto ao Arpoador, me dá uma dor
mas também me dá um calor

05 | 3 x 4

Moacyr Luz / Armando Freitas Filho

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Ler na areia, na revista do domingo
que ficou pra trás, no fim de tarde
que a praia é a permanente risada do mar
Ver nas fotos, nas páginas viradas
pelo vento
os mesmos coqueiros que pressinto aqui
em ordem unida, perfilados, sentinelas
estáticos e estéticos – defronte do horizonte
E impressa no céu, a Pedra da Gávea
e os Dois Irmãos (e eu sou só um)
onde passam e pousam inúmeras nuvens
que são falsos anjos que se desmancham

06 | Copacabana Noctívaga

Moacyr Luz / Ariel Marques

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Soa um sax sex-sensual na madrugada alta;
E chove nas ruas, solitárias ruas
De Copacabana.
O silêncio móvel dos trolleys passa;
só velocidade; e eu perambulando vou
pela azul-neón cidade;
Hong-Kong, Paris ou Pequim
não tem, oh blue dream,
oh Copacabana, sua sensualidade.
E chove nas ruas, solitárias ruas
de Copacabana,
enquanto a alta madrugada
sex-sensualsaxsoa.
(E, mais alto que o sax,
soa a garoa)

Banho-me no eletrocascatalumiar
dos anúncios coloridos;
o magneto-hipnótico rodar dos filmes vibra,
vibra nas minha retinas:
cinematicamente,
entro pela noite adentro,
enquanto fora as prostitutas
gargalham histéricas
nos ventres das boites;
e a maquina expelindo
vai sons e imagens:
uma lua de olhos orientais
passa, breve hai-kai,
pelos céus de Shangai
e cai.

Ballonbleu, bluesbasfoneyes,
Sob a azul escolta de sete estrelas samurais,
Volto à rua como se de
Um longo sonho astral;
a máquina cidade chora seu
desespero nos pistons em surdina,
soluça nos vidrosons dos letreiros;
a burguesia vai saindo dos clubes e cassinos,
sugadas suas vidas sem lida, sem lida.

(Na espantosa altura dos arranha-céus
há bastante espaço para os suicidas)
Ainda a passar o
móvel silêncio dos trolleys,
ainda o solitário chover
nas solitárias ruas de Copacabana,

o esperar da aurora
à sua hora, enquanto
sex-sensual um sax chora
na madrugada alta,
vou me embora, vou me embora…

07 | Méier

Moacyr Luz / Luiz Paiva de Castro

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Foi aqui que eu achei a chuva calma
de inverno, ao consumir-se na vidraça,
e descobri que a chuva traz na alma
o sol que surge quando a nuvem passa.

Após a chuva, a rosa. o lírio, a palma
parecem feitos de uma nova raça.
Para a criança sempre o nosso tempo espalma
mais do que o dia e o pássaro na praça.

(também a chuva estende sua gaze
e entra de novo na tranquila fase
do bicho, do navio, do algodão).

Foi no Méier que descobri no fundo
das coisas simples a noção do mundo
e pus a chuva e o sol no coração.

08 | Carnavais

Moacyr Luz / Geraldo Carneiro

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Não me fale de musas, quero fêmeas
de carne e osso, as sobras incompletas
de outros verões dos outros e de mim,
que tive, sim, como disse o Cartola,
outros amores muito antes do teu,
em que eu penava à procura do céu,
que por vezes achei, mas despenquei.
Agora, ao rés-do-chão, ainda procuro
alegorias do meu carnaval,
no qual serei rei momo e arlequim,
sempre disposto a me matar no fim
por colombina, coca ou estricnina.
Hei de cantar pra sempre as melodias
do Lamartine nosso, não do outro,
porque em matéria de manés e lamartines,
se os nossos dão de dez noutros quaisquer,
imagine em matéria de mulher?

09 | Cantiga das Ilhas

Moacyr Luz / Aldir Blanc

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No morro do Cabaceiro
procurei: tinha acabo
mas tinha mais avião
que no Galeão lotado…

Negra do Fundão, me compra.
Sô di eu mermo camelô:
faço a metade do preço,
valho duplo do valo

Já fui hômi do negócio
já me formei em dotô,
fui um cruel tocaieiro,
afamado jogadô…
faço a metade do preço,
valho o duplo do valô.

Mascate, sou de primeira
pois já fui embaixadô…
de açougueiro passei logo
pra médico operadô.

Foi bispo de falcatrua
penitente e pecado.
Negra do Fundão me compra
sô di eu mermo camelô,
faço a metade do preço,
valho o duplo do valo

Fui assaltante e juiz
motornêro e condutô
batuqueiro de euterpe
e até padre confessô…
viciado em cavalo
ordenança e cobrado,
mas é preciso que eu diga:
por cachaça tenho apreço…
seja o que for que tu pague,
valho a metade do preço…

No Morro do Cabaceiro
procurei: não tinha mais…
do Galeão, as morena
voô tudo pra Goiás…

10 | VII – Rio de Janeiro

Moacyr Luz / Carlos Drummond de Andrade

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Fios nervos riscos faíscas
as cores nascem e morrem
com impudor violento.
Onde meu vermelho? Virou cinza.
Passou a boa! Peço a palavra!
Meus amigos todos estão satisfeitos
com a vida dos outros.
Fútil nas sorveterias.
Pedante nas livrarias…
Nas praias nu nu nu nu nu
Tu tu tu tu tu no meu coração.
Mas tantos assassinatos, meu Deus
e tantos adultérios também.
E tantos, tantíssimos contos-do-vigário…
(Este povo quer me passar a perna).

Meu coração vai molemente dentro do táxi.

11 | Praia do Pinto

Moacyr Luz / Vinicius de Moraes

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Ao pé da praia do Pinto
existe uma favelinha
levantada em lama e zinco.
Foi lá que junto à Lagoa
num falado amanhecer
se encontraram dois malandros
com muita entrada em xadrez
ambos valentes da zona
querendo a mesma mulher

12 | As Cantadas

Moacyr Luz / Mário de Andrade

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Terras bruscas, céus maduros
apalpam curvas os autos,
ai, Guanabara
serão desejos incautos
Ancas pandas, seios duros
senti as curvas dos autos
nas praias de Guanabara.
Penetro as fendas dos morros
desafogos de amor, jorros
de sensualidades quentes
ai, ares de Guanabara
– sou jogado em praias largas
coxas satisfeitas feitas
de ondas amargas
Ai ai, Guanabara!
que todo me desfaleço
por cento e dez avenidas
pela mulher de em seguida
por teus cheiros, por teus sais
pelos aquedutos, pelos
morros de crespos camelos
e elefantes triunfais
eu não sei se mais gozara
Iaiá, sereia do mar
se achara n’alma outra clara
glória rara sol luar
– aurora uiara
Niagara realeza
suprema eterna surpresa
Guanabara…

Voz e Violão: Moacyr Luz

Água de Moringa:
Rui Alvim – Clarinete, Clarone e Sax
Marcílio Lopes – Bandolim
Jayme Vignoli – Cavaquinho
Luiz Flávio Alcofra – Violão e Viola caipira
Josimar Carneiro – Violão 7 cordas
André Boxexa – Bateria e Percussão

Arranjos:
Marcílio Lopes – Músicas 1, 2, 11
Jayme Vignoli – Músicas 6, 8, 12
Luiz Flávio Alcofra – Músicas 4, 5, 7
Josimar Carneiro – Músicas 3, 9, 10

Projeto: Moacyr Luz
Gravado, mixado e masterizado no Estúdio Copacabana / RJ
Técnico de Gravação, Mixagem e Masterização: Didier Fernan
Assistentes de Estúdio: Alex Baresi e Daniele Andrade
Fotos: Marcos Terranova
Locação das Fotos: Oficina da Foto
Projeto Gráfico: Quadratim Edição e Projeto Gráfico
(Vera Bernardes com Duda Gaspar, Isabel Bahiana e João Fonseca)
Direção de comunicação: Bráulio Neto
Assessoria de Imprensa: UM + UM Assessoria e Produção
Produção Executiva: Ize Sanz e Vera Thimoteo
Realização: Trio de Janeiro Produções
Desenho da Capa: Lan
Textos: Jaguar
Produtor Fonográfico: Lua Music

01 – Noite Carioca retirado do livro
“Poemas e bumba-meu-poeta” Ed. Nova Fronteira
02 – Poema Obsceno retirado do livro
“Na vertigem do dia” Ed. Civilização Brasileira
03 – Elegia Inútil retirado do livro
“Estrela da vida inteira” Ed. Nova Fronteira
04 – Coisa Mais Linda Mais Cheia de Graça retirado do livro
“O semelhante” Ed. Massao Ohno
05 – 3×4 retirado do livro
“3×4” Ed. Nova Fronteira
06 – Copacabana Noctívaga retirado do livro
“Poesia viva” Ed. Civilização Brasileira
07 – Méier retirado do livro
“Guia poético da cidade do Rio de Janeiro” Ed. Civilização Brasileira
08 – Carnavais retirado do livro
“Lira dos cinquet’anos” Ed. Relume-Dumará
09 – Cantiga das Ilhas | poema inédito
10 – VII – Rio de Janeiro retirado do livro
“Alguma poesia” Ed. José Olympio
11 – Praia do Pinto retirado do livro
“Roteiro lírico e sentimental do Rio de Janeiro” Ed. Companhia das Letras
12 – As Cantadas retirado do livro
“Grão cão do outubro” Ed. Itatiaia


carreira solo e projetos